Etanol: soberania para quem?

O governo Lula decidiu aumentar a mistura de etanol na gasolina, apresentando a medida como avanço da política energética brasileira e fortalecimento do combustível nacional. A pergunta que precisa ser feita, entretanto, é mais incômoda: de que adianta o governo criar um mercado maior para o etanol em nome da soberania nacional se os ativos que produzem esse etanol estão cada vez mais sujeitos ao controle de grandes grupos internacionais? Criar demanda por decreto é fácil. Garantir que a riqueza gerada por essa demanda permaneça no país é outra história.

Ações recentes do setor expõem essa contradição.

Enquanto o governo amplia compulsoriamente o mercado do etanol, a Bunge deixa a atividade sucroenergética brasileira e a chinesa Cofco amplia sua participação com a aquisição de usinas. Ao mesmo tempo, empresas brasileiras enfrentam endividamento e dificuldades financeiras.

É difícil falar em soberania econômica enquanto o Estado aumenta o tamanho do mercado e o controle dos grandes ativos continua concentrado em grupos multinacionais. Não estamos diante simplesmente de uma empresa brasileira sendo comprada por uma estrangeira. Estamos vendo capital internacional substituindo capital internacional e ampliando sua presença em uma cadeia estratégica brasileira.

Não se trata de ser contra o investimento estrangeiro. O capital externo é importante para o crescimento do agronegócio brasileiro. O problema está na estratégia. Se soberania é um princípio tão importante para o governo, deveria existir também uma política capaz de fortalecer as empresas e o capital que estão dentro do país, reduzindo o custo do dinheiro, melhorando a competitividade e criando condições para que produtores e empresas brasileiras também tenham capacidade de crescer, investir e disputar esses ativos.

No fim, fica uma questão que deveria ser respondida pelo próprio governo: qual soberania estamos construindo? A soberania de produzir mais etanol ou a soberania de ter capacidade para decidir quem controla os ativos, os investimentos e o resultado econômico dessa cadeia?

E para quem está no agro, a pergunta talvez seja ainda mais simples: quando o governo cria um mercado maior, quem está melhor preparado para ganhar dinheiro com ele?

Leia o artigo do link e entenda melhor o caso:

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